Domingo, 22 de Janeiro de 2006
Ensaio sobre a Contemplação do Abismo.

            Em tal lugar, estava alguém, olhando, atento, lá do alto, bem cá para as profundezas. Isto não era assim, antes, pensou ele. Pensou mais com o coração que com aquele, órgão, do corpo, o que se encontra entre as duas orelhas... Sentiu o aperto, muito forte, esmagador, o aperto no coração, os excedentes libertados desse aperto fatal, jorraram pelos olhos fora, num rio de lágrimas de sangue, caindo, gota a gota, na escuridão escura daquele abismo, perdoem-me a redundância, que um autor não pode repetir duas vezes a mesma palavra, na hipótese de cair na banalidade desses chacais que andam por estas nossas televisões...
            As gotas, sem som, arrastando um pouco da alma, um pouco de cada vez, foram caindo, leve, levemente, mas às dozes, docemente, partindo um pouco de cada vez, levando o coração em pedaços, para longe de quem não mais o usa. Ó, triste homem, que problema é esse que tanto te aflige, perguntou a sua fiel companheira, a nuvem, de água, tanta que há nestas montanhas...
            Mas o aperto era demasiado grande, poderoso demais para ele falar, a boca? Estava seca... os pulmões? Vazios do ar, e a mente? Congelada, imóvel, poderosa, aos teus pés, somente aos teus pés... 
            Leva as mãos à cabeça, sinal antigo do desespero, de quem vai, não sabe onde, para onde, não sei porquê, porquê, sem explicação, cruel mundo, do coração. Abre olhos, vá lá abre, abre e vê, tenta ver, mas não há luz, nem luz, nem som, nem sono, nem movimento, nem fogo, nem chama... Mas ele, consome-se, por dentro, consome-se, devagar, muito devagar.
            Ele olha para o abismo, sem acreditar bem... no que vê, ele olha, arregaladamente, sem saber se é verdade, ele olha, olha mesmo, olha, mas não vê!
            Das memórias, se alimenta, o cheiro, fogo lento, pensa nisso, pensa porquê, pensa nisso, VÊ! A tal, a tal ultima vez, aquela, ultima, ultima que nunca se sabe quando é, o ultimo suspiro? O último bater do coração, o ultimo olhar, o ultimo carinho de uma mão, fecha os olhos, imagina que está aqui, a completar essa visão.
            Dorme bem meu querido, sonha com as coisas boas do amanhã, imagina o mundo novo, que te espera pela manhã.
            Perdeu as forças, caiu ao chão, não se levanta, nem a mão. Obcecado? Sem saber porquê, está perdido, à tua mercê.


 


 


            Por um dia triste, que mais tarde espero não recordar, não é disto que são feitos os sonhos, não é este o material das nuvens... Porque se for, para quê viver? Para quê viver...



publicado por ZMS às 12:38
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